ADMINISTRAÇÃO DO TEMPO: A ESTÓRIA DOS
MACAQUINHOS
"O TEMPO NA ADMINISTRAÇÃO: DE QUEM É O PROBLEMA ?"
Capítulo Primeiro
Esta é a primeira parte da "estória dos macaquinhos", ou seja, da delegação
"para cima", "para o lado" ou "para baixo", para sua reflexão. Este artigo foi
cedido a muitos anos atrás pelo consultor e amigo Renato Bernhoeft.
Observe, em seu dia-a-dia nas próximas 4 semanas, quantos e quais simpáticos
macaquinhos você está carregando e reflita por que nunca parece haver tempo
suficiente para realizar tudo o que necessita ser feito...
Dentro de um mês você receberá a parte 2 desta estória!
Porque razão os administradores não têm tempo para nada, enquanto seus
subordinados nada têm a fazer? Neste artigo vamos analisar a fundo o significado
do tempo na administração, no que tange ao inter-relacionamento do administrador
com seu "big boss" (como chamaremos o "chefe" maior) e com seus subordinados.
Mais especificamente, vamos tratar aqui de três tipos diversos de tempo do
administrador, a saber:
O tempo imposto pelo superior - para execução das atividades exigidas pelo
superior e que o administrador não pode menosprezar sem sofrer uma admoestação
direta e imediata.
O tempo imposto pela organização - para atender aos pedidos formulados ao
administrador, para um apoio efetivo aos seus colegas. Essa ajuda também deve
ser proporcionada, sob pena de ocorrerem admoestações, embora nem sempre diretas
e imediatas.
O tempo imposto por ele mesmo - para realizar aquilo que o administrador criar
ou resolver por conta própria. Uma parte deste tipo de tempo, porém, será tomada
por seus subordinados e é chamada de "tempo imposto pelos subordinados". O tempo
restante será todo seu e é chamado "tempo discricionário", imposto por seu livre
arbítrio. O tempo auto-imposto não está sujeito a nenhuma imposição externa,
pois nem o "big boss" nem a organização podem repreender o administrador por não
fazer o que eles nem sabiam que ele tencionava realizar.
A perfeita administração do tempo exige que o administrador tenha total controle
da programação ou cronograma de suas funções. Uma vez que aquilo que o "big boss"
e a organização lhe impõem está apoiado nos regulamentos internos, ele não pode
brincar com tais exigências. Portanto, o tempo que ele impõe a si próprio se
torna seu principal motivo de preocupação.
A estratégia do administrador será, por conseguinte, a de aumentar o componente
"discricionário" do tempo auto-imposto, minimizando ou eliminando o componente
"subordinado". Ele se valerá, então, do incremento adicional a fim de manter um
controle mais efetivo das atividades que lhe são impostas pelo "big boss" e pela
organização. A maioria dos Gerentes despendem muito mais do "tempo imposto pelo
subordinado" do que podem imaginar.
Assim sendo, vamos utilizar aqui a analogia do "macaquinho" (isto é, o problema)
para analisar de que forma surge o tempo imposto pelos subordinados e o que o
administrador pode fazer no sentido de evitá-lo.
ONDE ESTÁ O "MACAQUINHO"?
Vamos imaginar que o administrador esteja atravessando o corredor e nota que um
de seus subordinados, o Sr. Fulano, vem vindo em sentido contrário. Quando os
dois se cruzam, o Sr. Fulano cumprimenta amavelmente o Gerente, dizendo: "Bom
dia!... A propósito, temos um pequeno problema. Sabe como é..."
À medida que o Sr. Fulano vai falando, o Gerente descobre nesse problema os
mesmos dois aspectos fundamentais que caracterizam todas as questões que seus
subordinados graciosamente lhe trazem à atenção. Isto é:
Ele já sabe de sobra o que acontece para compreender a situação mas...
Não sabe o suficiente para tomar uma decisão ali mesmo, o que seria a atitude
esperada dele.
Após algum tempo, o Gerente diz: "Foi bom você ter trazido isso ao meu
conhecimento. Só que estou com muita pressa no momento. Deixe-me pensar um pouco
no assunto e eu o aviso em seguida". Cada qual segue o seu rumo.
Analisemos o que acaba de ocorrer. Antes de os dois se encontrarem, com quem
estava o "macaquinho"? Com o subordinado, é claro. Mas, depois que se separaram,
com quem ficou? Com o Gerente. Portanto, o "tempo imposto pelo subordinado"
começa no momento em que o "macaquinho" consegue pular das costas do subordinado
para as costas do seu supervisor, e o pior é que não termina enquanto o "macaco"
não voltar ao seu dono para ser tratado e devidamente alimentado.
Ao aceitar o "macaco" nas costas, o Gerente, voluntariamente, assume a posição
de subordinado do seu subordinado. Ou seja, ele permite que o Sr. Fulano o faça
de seu próprio subordinado ao realizar duas coisas que um subordinado geralmente
deve fazer para seu chefe - o administrador tirou a responsabilidade das costas
de seu auxiliar e prometeu-lhe que faria um relatório sobre as providências
cabíveis.
O subordinado, para certificar-se de que o Gerente não deixou de compreender
tudo direitinho, dará um pulo a sala e cordialmente lhe indagará: "Então, como
vai a coisa, chefe?" (a isso se chama "supervisão"...).
Ou, então, imaginemos que, ao encerrar-se uma reunião de rotina com um outro
subordinado, Sr. Beltrano, o Gerente administrativo lhe diga: "Ótimo. Mande-me
um memorando sobre isso aí".
Analisemos este caso. O "macaco" está nesse dado momento nas costas do
subordinado porque a próxima providência é dele. Porém, o ágil "macaquinho" já
está preparando o pulo... Olhe só que danado! O Sr. Beltrano obedientemente
elabora o memorando solicitado e o coloca em sua caixa de saída. Pouco depois, o
Gerente o retira de sua caixa de entrada e o lê com atenção. De quem é a vez
agora? Do Gerente administrativo, é claro! Se ele não tomar uma providência logo
mais, receberá um outro "memo" de seu subordinado, cobrando a coisa (essa é uma
outra forma de "supervisão"!). E quanto mais o Gerente demorar em responder,
tanto mais frustado ficará seu subordinado (este ficará "dando tratos à bola") e
mais culpado o Gerente se sentirá (seu atraso no "tempo imposto pelos
subordinados" estará aumentando cada vez mais).
Suponhamos, por outro lado, que numa reunião com o Sr. Sicrano, o Gerente
concorde em fornecer-lhe todo apoio num plano de relações públicas que acaba de
solicitar-lhe. As palavras finais do Gerente ao Sr. Sicrano são: "Avise-me de
que forma posso ajudá-lo nisso, está bem?"
Agora examinemos a situação. Neste caso o "macaquinho" inicialmente encontra-se
nas costas do subordinado. Mas, por quanto tempo? O Sr. Sicrano entende
perfeitamente que não pode desenvolver o plano até que a sua proposta receba a
aprovação do Gerente. E, por experiência própria, também sabe que sua proposta
com certeza ficará arquivada na pasta do Gerente por várias semanas, aguardando
que o chefe, com tempo, chegue até lá. Quem é que realmente está com o
"macaquinho", então? Quem estará cobrando de quem? Haverá muita "fundição de
cuca" e novo atraso nas providências, uma vez mais.
Outro subordinado, o Sr. De Tal, acaba de ser transferido de um outro
departamento, a fim de lançar e posteriormente administrar um projeto
recém-criado. O Gerente disse-lhe que deveriam reunir-se logo mais, a fim de
estabelecer uma série de objetivos para o cargo, e que "farei um esboço inicial
para discutirmos então a questão".
Ora, analisemos este caso também. O subordinado assume o novo cargo (por
nomeação efetiva) e toma a si toda a responsabilidade (por delegação efetiva),
só que a providência seguinte cabe ao Gerente administrativo. Enquanto ele não a
tomar, estará com o "macaquinho" nas costas e o subordinado ficará de braços
cruzados...
Mas porque as coisas são assim? Porque em cada um dos casos o Gerente e o
subordinado entendem logo de cara, consciente ou inconscientemente, que o tema
em questão é um problema conjunto. O "macaco" em cada caso começa montado nas
costas de ambos. Tudo o que tem a fazer agora é mexer a perna errada e - pronto!
- o subordinado habilmente tira o corpo fora. O Gerente fica, assim, com mais um
bicho em sua coleção. Claro que macacos podem ser ensinados a não movimentar a
perna errada. Mas é bem mais fácil evitar que ele suba nas costas, para início
de conversa.
AFINAL, QUEM TRABALHA PARA QUEM?
Para tornar o que se segue mais verossímil, admitamos que estes quatro
subordinados sejam tão ciosos com o tempo do Gerente que se esforcem a fim de
que não mais de três "macaquinhos" pulem das costas de cada um para as do chefe
num mesmo dia de trabalho. Em uma semana de cinco dias, então, o Gerente terá
ficado com sessenta "macaquinhos" esganiçados - o que é demais para que o
coitado possa tratar de todos eles, um de cada vez. Portanto, o Gerente gasta o
"tempo imposto por seus subordinados" jogando pra lá e pra cá com suas
"prioridades".
Na Sexta-Feira à tardinha o Gerente encontra-se em sua sala, com a porta fechada
para poder ter o necessário sossego e poder pensar na situação, enquanto seus
subordinados aguardam, do outro lado, por uma última chance de lembrar-lhe,
antes do fim da semana, que ele deverá "assobiar e chupar cana".
Imagine só o que estão dizendo, um ao outro, enquanto esperam para dar aquela
palavrinha com o Gerente: "Que chateação... O homem não é capaz de tomar uma
decisão... Como é que alguém consegue chegar àquela posição na empresa sem
capacidade de decidir coisa alguma. É o que ninguém entende..."
O pior de tudo é que a razão pela qual o Gerente não pode tomar nenhuma das
"providências seguintes" é que o seu tempo está quase inteiramente tomado com o
atendimento das exigências do "big boss" ou da própria organização. Para poder
controlar tais exigências, ele precisa de tempo discricionário que, por sua vez,
lhe é negado quando está às voltas com todos esses "macaquinhos". Enfim, o
Gerente fica preso a um verdadeiro círculo vicioso.
Mas o tempo está sendo perdido (o que não é bem verdade).
O Gerente administrativo chama a secretária pelo interfone e a instrui a dizer a
seus subordinados que não poderá vê-los até segunda-feira pela manhã. Às 8 horas
da noite ele vai para casa, com o firme propósito de voltar ao escritório no dia
seguinte e passar o fim de semana trabalhando. Retorna ao escritório
bem-disposto na manhã de Sábado apenas para ver, no campinho de futebol que fica
do outro lado da rua e que pode ser visto da janela de seu escritório, adivinhe
quem batendo uma bolinha e tomando umas cervejas?
Era só o que faltava! Agora ele ficou sabendo quem realmente trabalha para quem.
Além do mais, agora entende que, se conseguir realizar neste fim de semana tudo
aquilo que veio decidido a fazer, a moral de seus subordinados se elevará tanto
que eles aumentarão tranqüilamente o número de "macaquinhos" que no futuro
deixarão saltar para as costas do Gerente. Em suma, ele compreende agora, com a
nitidez de uma revelação num monte sagrado, que quanto mais se aprofundar no
trabalho mais e mais ficará atrasado no atendimento dos problemas. Ele então
deixa o escritório com a pressa de quem vai tirar o pai da forca.
O que pretende? Envolver-se de corpo e alma em algo que há muitos anos não tem
tido tempo de fazer: passar um fim de semana inteirinho com a família (esta é
uma das muitas alternativas de utilização do "tempo discricionário").
Na noite de Domingo ele assiste ao "Sai de Baixo" sem culpa e permite-se
aproveitar 8 horas de sono tranqüilo e imperturbável, porque já tem planos bem
definidos para segunda-feira. Resolveu livrar-se do "Tempo imposto por seus
subordinados". Em troca, vai conseguir o equivalente em "tempo discricionário",
parte do qual passará com seus subordinados para que estes aprendam a difícil,
porém compensadora, arte de "Como Cuidar de Macacos".
O Gerente também terá bastante tempo discricionário à sua disposição para
controlar o cronograma e a espécie não só do tempo que lhe é exigido pelo "big
boss", mas também do tempo que lhe é exigido pela empresa. Tudo isso poderá
levar vários meses; porém, quando comparado com a maneira como as coisas iam
antes, as compensações são enormes. O seu objetivo final é o de gerir seu
próprio tempo administrativo.
Continua no capítulo segundo, em quatro semanas...
Enquanto isto, passe a observar e listar o seu zoológico pessoal, a partir de
agora mesmo (no tempo que lhe sobrar...):
Macaquinhos que a organização me impõe:
Macaquinhos legitimamente impostos pelo meu chefe:
Macaquinhos gentilmente cedidos por meus subordinados:
Meus próprios e legítimos macaquinhos:
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